Redes Sociais conectam ideias e visões de mundo

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Viciados em Problemas

Luciano Alvarenga

Não é incomum em nossas relações familiares nos encontrarmos, quase sempre, envolvidos com os mesmos problemas e surpreendentemente com as mesmas pessoas. Ficamos esperando que o tempo passe e que nossas relações familiares mudem; o tempo passa e percebemos que os problemas, as brigas, os desentendimentos, as não compreensões continuam tais quais elas eram anos, às vezes décadas atrás.
Não conseguimos entender como aquela pessoa pode continuar a fazer as coisas da mesma maneira, e se comportar como se tudo fosse a mesma coisa, quando tudo mudou. Nossos amigos e pessoas conhecidas já conhecem nossas histórias familiares de tal maneira, que quando contamos a eles tais problemas já sabem de quem estamos falando.
Mais interessante ainda é que quando as coisas parecem que vão se solucionar e ganhar novos rumos, nos fazendo pensar que, enfim, tudo mudará algo acontece inesperadamente trazendo tudo e todos à mesma situação estagnada e problemática de antes. Não fossem os problemas que outros possuem, quando percebemos estamos nós, também, envolvidos com os mesmos dramas e complicações que jurávamos jamais entraríamos novamente. Quando percebemos estamos namorando, casados, ou envolvidos com outra pessoa tão igual e cheia de problemas e vícios quanto havíamos nos relacionado antes.
De repente a vida parece um circulo que sempre leva àquele mesmo lugar ou situação que conhecemos, por seus problemas e sofrimentos, que esperávamos não voltar mais. A vida da maioria das pessoas, infelizmente, percorre este mesmo roteiro. O psicoterapeuta Flávio Gikovate disse, certa vez, que as pessoas têm medo da felicidade e por isso vivem no sofrimento, eu diria que as pessoas vivem no sofrimento por que são viciadas em problemas emocionais.
Todos sabemos que o motor que movimenta a grande parte das famílias é o da resolução de problemas, ainda que seja por amor, e na maioria dos casos é. Desde o primeiro dia depois do casamento a família se especializa na arte de resolver e superar dificuldades e problemas. Isso não acarreta claro, só coisa ruim; muitas das experiências e alegrias familiares também resultam disso. No entanto, é inescapável à maioria das famílias querer ajustar cada membro a partir do que ela entende ser o certo, o correto e o ideal (pelo menos era até algum tempo atrás). O fato é que a tentativa de ajustar sentimentos, relações, comportamentos, quereres, vontades e desejos de acordo com uma ética, moral ou seja o que for familiar, resulta numa ação de cada membro de negar, aceitar, se contrapor a esse enquadramento.
Os problemas familiares são sempre, ou quase, uma tentativa de corrigir os “desviantes”, os membros que não se ajustam ao que cada membro da família acha que seja o certo e ideal. Não bastasse essa malograda tentativa que se repete indefinidamente, o fato é que anos e décadas de exercício na arte do “conserto” acaba por gerar o hábito de consertar o que na verdade não possui conserto. A questão a partir disso é, será que anos nesse exercício de ajustar o “desajustado” não gera o vício de querer mais o problema do que a solução?
O que se pretende colocar aqui é que estas pessoas estão viciadas em problemas, seu foco não é a solução. Se passamos os anos repetindo a mesma ladainha e sofrendo em função disso, sem que nada, ou quase, mude, é provável que estejamos viciados nestes problemas. Não sabemos mais como viver de outra forma senão no sofrimento resultante de problemas que sabemos não possuem solução, uma vez que talvez nem sejam problemas.
Diz o bom senso que mudar implica atitude, certamente diferente daquela que estamos acostumados a tomar. Mas e quando estamos viciados em sofrer? Quando não sabemos viver de outra maneira senão sofrendo?
Queremos que as coisas em nós e na nossa família mude, mas talvez não estejamos preparados nem querendo, mesmo que sem saber, que isso ocorra.

http://twitter.com/LucaAlvarenga

Nenhum comentário: