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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Quando a imprensa escolhe os presidentes

Fox News emprega cinco presidenciáveis nos EUA e lidera marcha à direita | Valor Online

Edward Luce e Andrew Edgecliffe-Johnson | Financial Times, de Washington

Desde que Winston Churchill escreveu para os jornais de lorde Beaverbrook nos seus "anos inóspitos" na década de 30, os políticos complementam a sua renda com jornalismo. Mas a crescente generosidade da Fox News, o canal de TV a cabo dos EUA pertencente a Rupert Murdoch, que tem cinco possíveis candidatos presidenciais republicanos na sua folha de pagamento, lança todos os exemplos anteriores na penumbra.

O alcance da Fox é tão extenso, e o canal é tão popular entre os eleitores republicanos, que não seria nenhum exagero apelidar a próxima disputa para a candidatura republicana de 2012 de "prévia Fox".

Murdoch, que está se transformando num importante doador para o Partido Republicano, mais recentemente com uma contribuição de US$ 1 milhão para a Associação dos Governadores Republicanos (RGA, na sigla em inglês), minimiza o seu papel.

"Isso não se reflete na Fox News", disse Murdoch ao site noticioso Politico, na quarta-feira. "Não teve nenhuma relação com a Fox News. A contribuição para a RGA na verdade foi [consequência] da minha amizade com John Kasich [o candidato republicano para o cargo de governador de Ohio]". Murdoch também fez uma doação de US$ 1 milhão para a Câmara de Comércio dos EUA, que está provendo recursos a dezenas de candidatos republicanos nas eleições de metade de mandato presidencial dos EUA.

Poucos aceitariam a distinção feita por Murdoch entre suas próprias opiniões e as da Fox. Um estudo de setembro realizado pelo instituto de pesquisas Pew constatou que apenas a Fox havia mantido o tamanho da sua audiência desde a eleição de 2008 entre todos os canais a cabo, e isso porque os eleitores republicanos estavam se movendo na sua direção. A parcela de republicanos que diz assistir a Fox regularmente aumentou de apenas 18%, há uma década, para 40%.

Somente 15% dos democratas dizem que assistem a Fox regularmente. Uma das colaboradoras remuneradas de Murdoch, a ex-governadora do Alasca Sarah Palin, que estaria contemplando a possibilidade de já se declarar pré-candidata à Presidência, no mês passado aconselhou Christine O'Donnell, a candidata republicana ao Senado em Delaware, a "falar através da Fox News" se ela quiser chegar aos eleitores independentes, além dos republicanos. Palin fez seus comentários durante uma entrevista na Fox News.

Os demais possíveis candidatos para 2012 na folha de pagamentos da Fox são Mike Huckabee, ex-governador de Arkansas que tem seu próprio programa popular de TV a cada dois finais de semana; Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara dos Deputados; Rick Santorum, ex-senador da Pensilvânia; e John Bolton, que foi o embaixador de George W. Bush na ONU.

A Fox News se recusa a comentar sobre audiência e salário individuais, os motivos para o canal recrutá-los ou sobre se a presença deles poderia representar conflitos para a sua cobertura.

"Rupert Murdoch está prestes a ter uma atuação muito central na corrida presidencial de 2012", disse David Frum, ex-escritor de discursos de Bush, ao "Financial Times". Frum surpreendeu os conservadores este ano quando disse que os republicanos costumavam imaginar que a Fox trabalhava para eles e não ao contrário. "Seria um bom palpite dizer que, se a Fox tem aversão a você, então você não tem uma chance muito boa de obter a candidatura republicana."

A maioria dos cinco possíveis candidatos, com exceção de Huckabee, que tinha renda pessoal muito baixa, provavelmente se beneficia mais da exposição que do dinheiro com o oxigênio que a Fox dá à sua marca política - e a seus outros produtos, como os dois livros de Palin, feitos por "escritores fantasmas". Um executivo de mídia estimou que eles provavelmente recebem entre US$ 50 mil e US$ 500 mil por ano da Fox.

Mas a renda ainda é importante. Talvez o candidato potencial mais proeminente que não está na folha de pagamentos da Fox é Mitt Romney, ex-governador de Massachussets, que vale muitas centenas de milhões de dólares e que ficou em segundo lugar nas primárias vencidas por John McCain em 2008. Mas, mesmo a fortuna de Romney pode não ser suficiente para superar a raiva conservadora por seu papel ao pressionar pela aprovação da reforma da saúde pública em Massachussets - um projeto de lei que alguns descreveriam como ligeiramente à esquerda da reforma de Barack Obama.

"Romney tem mais dinheiro que Deus", diz Brent Bozell, chefe do Media Research Centre, grupo conservador que monitora supostas "armas de distorção de massa" da mídia "liberal". "Mas todo esse dinheiro não o ajudará a superar seu histórico da reforma da saúde, a menos que ele reconheça inequivocamente que foi um erro."

A Fox News, cujos principais âncoras, como Sean Hannity e Bill O'Reilly, fizeram campanha contra a reforma da saúde de Obama, quase certamente concordaria.

Analistas preveem que a primária de 2012 será a mais concorrida desde o primeiro mandato de Bill Clinton, em 1994. Acredita-se que muito mais gente, como Tim Paw-lenty, governador de Minnesota, e Hayley Barbour, governador do Mississippi, esteja interessada. "Será uma confusão total, e a disputa começará no dia seguinte à eleição" de novembro, diz Bozell. "Pessoalmente, eu apostaria no sr. X. Alguém vai surgir do nada e entusiasmar a base conservadora. E, quando isso acontecer, a Fox News lhes dará todo o tempo no ar de que precisar."

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