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Paraibuna

A oposição não entende Paraibuna


Luciano Alvarenga

Nestes últimos 6 anos, escrevi mais de 60 textos sobre Paraibuna com acento especial à política. Confesso que tal exercício foi como uma análise psicanalítica. À medida que escrevia entendia melhor a mim mesmo e a cidade. Se alguém estiver disposto a patrocinar a publicação deles, eu aceito.
Uma das coisas que passei a entender melhor é a relação situação/oposição em Paraibuna, ou Jaimistas e Joaquinzistas (alguém ainda sabe o que é isso?). Agora que o Barros é prefeito e a oposição no seu costumeiro e confortável lugar, me pego a pensar sobre isso novamente.
Por que a atual situação sempre ganha e atual oposição sempre perde?, ou como disse meu amigo Zé Vicente, a “oposição vive de soluços, quando ela soluça assume o poder”. A oposição é uma desterrada em Paraibuna, mas quem é a oposição? A oposição clássica, aquele grupo mais ou menos coeso e afeito, compõe-se por algumas famílias, uma classe média decadente, que vive de um passado glorioso que nunca existiu. Famílias que consideram Paraibuna um lugarzinho atrasado de gente mais atrasada ainda. E ao lado dela, na oposição também, várias pessoas críticas, mais preparadas, intelectualmente bem posicionadas, mas que em nada se identificam com aquelas famílias. São pessoas com projeto, com idéias bem intencionadas para a cidade e que se identificam com um ser paraibunse. O projeto Chão Caipira, patrocinado pela Petrobrás, levado à cabo pelo meu amigo João Rural em suas décadas de pesquisa pelo Vale do Paraíba é uma expressão desta oposição bem intencionada e que compreende Paraibuna.
Mas a partir de agora quando eu me referir à oposição estarei falando apenas sobre aquelas poucas famílias que a cidade toda sabe quem são. Quando eu vi o Barros e o Vitão sendo carregados pelo povo no dia da eleição, em 2008, num gesto esfuziante, intenso, alegre e com um sentido de desforra, percebi uma coisa que havia deixado escapar nos anos anteriores. A maior parte da cidade se identifica com eles, mais do que isso, se identifica com aquilo que eles representam e que vai além deles em si mesmos. Ou seja, hoje é o Barros, mas no passado foi o Luiz, e antes o Jaime.
Todos os três têm algo em comum e que dialoga com a alma da cidade, coisa que a oposição nunca percebeu e por isso sempre está fora do poder. No primeiro ano em que o Barros foi prefeito assisti uma entrevista dele, na TV Band do Vale, que deu o estalo que me permitiu perceber melhor o povo da cidade. Disse ele, o Barros, quando perguntado sobre o turismo em Paraibuna. Ele respondeu mais ou menos assim: “a prefeitura vai tratar do turismo sim, mas dentro da capacidade da cidade e sem afetar o dia a dia de Paraibuna”. Não foram estas as palavras, mas esta era a idéia central.
O Barros esta em sintonia com a alma da cidade, uma cidade com quase 400 anos. O povo não quer que Paraibuna seja outra coisa além do que é. O povo não quer que ela se desenvolva se isso significar mudanças fundamentais. Os comerciantes de Paraibuna parecem aquela dona de loja na minissérie “A Cura” que estava passando na Globo: cara fechada, de poucos amigos e que não gosta de turista. Eles, os comerciantes de Paraibuna, estão satisfeitos com o pequeno e modesto movimento local que lhes permite ter uma vida razoável, mas sem atribulações.
Certa vez um colega meu da oposição e empresário local, estava revoltado por que os empresários da cidade não apóiam nada que signifique mudança e crescimento da cidade. É claro que não apóiam, isso pode redundar na vinda de empresários de fora muito mais poderosos e que certamente em pouco tempo dominariam a economia local e provavelmente o poder político.
No fundo é uma façanha que Paraibuna, apesar do intenso desenvolvimento regional, continue quase a mesma de 20 anos atrás. São Luis do Paraitinga, São Francisco Xavier, Caraguatatuba, e mais remotamente Campos do Jordão, cidades antes pequenas, pobres e discretas se transformaram em função do Turismo, e quem visita estas cidades e conversa com os nativos percebe neles um misto de contentamento e frustração. De um lado, ganham muito mais, muito mesmo, mas por outro, perderam a cidade e se transformaram em reféns de turistas, no caso de Caraguatatuba mal educados, que depredam, poluem e não tem nenhuma relação de afeto com estas cidades além do consumo de seus bens naturais.
 Aliás, este é um fenômeno mundial. Os famosos Alpes Suíços que no inicio do Século XX era um amontoado de vilas tradicionais e “atrasadas”, entraram na máquina econômica do turismo e hoje não são nem a mais pálida lembrança do que foram cem anos atrás. Uma cultura centenária desapareceu. Muitas cidades hoje repensam esta via de desenvolvimento, e algumas não querem nem mesmo falar sobre isso. O caso de Fernando de Noronha é mais um exemplo: a cidade está sendo consumida, literalmente, pelo turismo. O que era remédio para o atraso se transformou em veneno.
É isso que a oposição não entende. Ela quer que Paraibuna se transforme, mas os paraibunenses não querem. E o problema maior, além desse, é o fato, extremamente irritante para oposição, que é o de ser governada por uma caipirada que ela não entende por que faz tanto sucesso. Conversava com um político que pode vir a ser candidato na oposição, e ele reclamava de que o povo não sabe votar, em alusão ao Barros, imagino. Esse é o problema da oposição. Quando o povo não vota nela, e quase sempre não vota, ela o chama de burro.
Tem uma lenda que diz, que o Luiz, num dos seus mandatos, teria feito uma pesquisa na cidade para saber se o povo gostaria que a prefeitura trouxesse fábricas pra cidade: surpreendentemente a maioria teria dito que não. Aliás, o povo gosta do Luis, assim como gostou do Jaime e gosta do Barros, são carismáticos, próximos e entendem Paraibuna. Gostar não significa aprovar, como o Luiz sabe.

Paraibuna fez uma escolha, quer continuar sendo Paraibuna no seu mais velho e melhor sentido. A oposição precisa entender esse sentimento e transformá-lo em política.

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