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Exit Through The Gift Shop



Banksy em cena do documentário: identidade secreta
Foto: Divulgação
Banksy em cena do documentário: identidade secreta
Um dos nomes mais importantes e subversivos da arte contemporânea, Banksy permanece um mistério, sem identidade. O grafiteiro britânico nunca veio a público – só se comunica através de porta-vozes – e, quando aparece em vídeos, tem sempre o rosto escondido e a voz, alterada. Acredita-se até que ele nem exista, seja um coletivo centralizado numa figura mítica, um fenômeno pop para desafiar o sistema. Ele luta para não ser assimilado – a abertura recente de "Os Simpsons" prova isso – e sua estreia no cinema vai por esse caminho. Na programação da Mostra Internacional de São Paulo, o documentário “Exit Through the Gift Shop” faz uma crítica à arte, ao consumismo, à mídia, com surpreendente desenvoltura e bom humor, como as próprias obras de Banksy.
Logo no início, depois do logo da Paranoid Pictures (brincadeira com a montanha da Paramount), vemos imagens de grafiteiros em ação – escalando prédios, interagindo com placas na rua, fugindo da polícia – naquele que, nos contam, é o “maior movimento de contracultura desde o punk”. Banksy, coberto por um capuz, trata de se explicar. A ideia, originalmente, era de que ele fosse o tema do filme, mas mudou de ideia quando seu documentarista, o francês Thierry Guetta, se revelou “muito mais interessante" do que ele: "Não é 'E o Vento Levou', mas tem uma mensagem".
Ex-vendedor de roupas radicado em Los Angeles, Guetta tinha desde a década de 1980 uma compulsão por filmar tudo, sem muita inteligência – era quase um retardo mental. De celebridades à família, achou um foco quando começou a acompanhar o trabalho do primo, Space Invader, que cola em prédios e calçadas os bichos pixelados do videogame. A partir daí, Guetta entrou em contato com o universo dos artistas de rua e documentou a gênese dessas obras de vida curta, em vários lugares do mundo. Conheceu Shepard Fairey – o criador da famosa imagem de campanha de Barack Obama – e, através dele, Banksy, de quem ganhou a confiança.
Taxado como “terrorista da arte” pela imprensa, as obras de Banksy aparecem de forma generosa no filme – as intervenções nos muros que separam Israel e Palestina, um preso inflável de Guantánamo na Disney, as colagens nas galerias britânicas, a “morte” de uma cabine telefônica –, mais para mostrar a transformação que a arte de rua sofreu no mercado por sua causa nos anos 2000. De repente, leilões começaram a oferecer, ao lado de Picasso, Mondrian e Paul Klee, as intervenções de Banksy. Quando a cabine telefônica foi arrematada por meio milhão de dólares, uma mudança estava em curso.
Foto: Divulgaç
O francês Thierry Guetta: o vazio da arte atual
Guetta tentou transformar milhares de horas de gravação em algo aproveitável e entregou, segundo Banksy, um filme que parecia feito por “alguém com problemas mentais segurando uma câmera”. Aconselhado pelo amigo a tentar ele mesmo fazer sua arte, Guetta, obsessivo, virou Mr. Brainwash. Emulando tudo o que viu ao longo dos anos, sem qualquer originalidade, elaborou um plano megalomaníaco para virar “the next big thing” em Los Angeles, e conseguiu. Adotado pela mídia – e por Madonna, para quem desenhou a capa da coletânea “Celebration” –, virou uma estrela do dia para a noite. Mais do que isso, um artista.
“Exit Throught the Gift Shop”, como se vê, vai além de retratar a arte de rua: questiona o que é a arte moderna. Mostra como é fácil se tornar hype, fazendo a coisa certa, e criar um discurso de modernidade e crítica a partir do vazio. Sem contar o próprio consumismo que tomou conta do mundo da arte, como o próprio título entrega: a saída dos museus, invariavelmente, passa pelas lojas de souvenirs. Walter Benjamim já falava disso há décadas, mas Banksy não quer saber de teoria: deixa claro que tudo virou um circo sem sentido, e por que não rir disso?
Ele é, sim, crítico, corrosivo e quer chamar a atenção para o problema, mas tirar sarro faz parte do processo. Tanto é que até agora não se descarta a possibilidade de tudo que envolve Mr. Brainwash ser mais uma brincadeira do grafiteiro. Sem previsão de estreia no Brasil, “Exit Throught the Gift Shop” provoca tanta reflexão, ou mais, quanto um passeio de horas pelos três andares da Bienal de São Paulo. Poupe tempo e vá ao cinema.
Serviço – “Exit Through the Gift Shop” na Mostra de São Paulo
Unibanco Arteplex 1, 23/10 (sábado), 23h40, sessão 111
Belas Artes 2, 26/10 (terça), 19h50, sessão 464
Espaço Unibanco 3, 29/10 (sexta), 19h50, sessão 763

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