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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Civilizados na Barbárie

Civilizados a golpes de barbárie

Dafne Melo e Silvia Beatriz Adoue
de Campo Grande (MS)




Em cada época, a elite elege seus bárbaros. Se hoje os favelados, pobres e militantes de movimentos sociais são os bárbaros da vez, escravos e indígenas foram vistos como o elemento social a ser eliminado, em nome da construção de uma civilização, em moldes europeus. Talvez mais do que em qualquer outro país da América Latina, o discurso da oposição entre civilização e barbárie encontra terreno fértil na Argentina, não por acaso o único país que elaborou um projeto oficial de extermínio de indígenas após a independência, ou seja, elaborado e levado a cabo pelas “novas” elites dirigentes. O episódio, conhecido como Conquista do Deserto, ocorreu entre 1869 e 1878, e hoje é considerado como um genocídio dos indígenas mapuche, tehuelche e ranquel, que habitavam a região da Pampa e a Patagônia.

Para garantir a inserção (subalterna) no mercado mundial capitalista, a Argentina assim como o resto das nações de América Latina precisaram, depois da descolonização política, manter as mesmas formas pré-capitalistas de superexploração do trabalho e da natureza que haviam se afirmado durante a colônia, que só se mantêm a custa de muita violência. É o neocolonialismo, e não o povo dos países, a causa da barbárie. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, a professora da Universidade de Buenos Aires e escritora, Maria Rosa Lojo, comenta os momentos principais em que essa oposição aparece, tema especialmente tratado nas suas obras, e afirma que, para as elites, os bárbaros de hoje, de acordo com o discurso propagado pela imprensa, seriam os movimentos piqueteiros, que ganharam forma no país após a crise de 2001. Leia a entrevista a seguir.

Brasil de Fato – Quando o binômio civilização e barbárie aparece primeiro na literatura argentina?


Maria Rosa Lojo –
Para os argentinos e para a América hispânica, com o livro Facundo – civilização e barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento [obra de 1845]. Não que não fosse usado antes, há uma história em termos do que se considera civilização e o que se considera bárbaro, selvagem, que é uma visão européia sobre o Novo Mundo. Mas Sarmiento populariza esse binômio para toda América Latina. Atenção que ele usa “e”, e não versus. Talvez porque ele fosse consciente de que aquilo que era chamado barbárie, era também uma forma de cultura e que o Facundo que ele constrói é um representante antropológico do argentino. Em algum momento ele diz que, ao levantar a gola do fraque com que o argentino se disfarça, se encontrará debaixo o gaucho [entendido como o camponês característico das regiões do sul do Brasil, Uruguai e Argentina]. O texto do Facundo é muito interessante pela sua complexidade, pelas contradições, pela fascinação que o personagem Facundo desperta em Sarmiento. Mas qual é o problema? Facundo se converte em uma figura mítica, um personagem rico por suas ambivalências, mas como obra política foi utilizado – e simplificado, há de se dizer – de tal maneira que tudo aquilo qualificado como bárbaro termina convertendo-se em algo que é ruim, sem razão de ser, uma maneira de estar no mundo que deve ser modificada para que a América hispânica possa ascender ao estatuto de civilização, de sociedade racional. O problema é que “bárbaro” vira tudo aquilo que é o outro. A única possibilidade de não ser bárbaro é seguir uma norma cultural que vem definida pela ilustração européia. Mais posteriormente, ele vai se seduzir pela sociedade estadunidense, ao mesmo tempo que não deixa de estar seduzido por aquilo que ele chama de barbárie. É parte da contradição sarmientina.

E como aparece essa fascinação pela barbárie?

Eu diria que Sarmiento era ele mesmo bastante “bárbaro”. Thomas Eloy Martinez [escritor e jornalista argentino] tem uma frase com a qual concordo: “fomos civilizados a golpes de barbárie”. Ele veio de uma cultura provinciana, onde se conservavam muitas características arcaicas da cultura hispânica. Como homem, era bastante colérico e descontrolado, ao mesmo tempo de muita coragem. Aqui aparece já meu lado escritora, que vê Sarmiento como um personagem interessante. Ele estava sempre em contato com o novo, pensando no que poderia funcionar e ser bom para a Argentina se nela aplicado. O melhor lado de Sarmiento é sem dúvida sua relação com a educação, principalmente em relação às mulheres, pois nesse sentido as via como colegas, defendia que elas deveriam estudar, que não deveriam necessariamente ter a mesma opinião política de seus maridos, celebrou a aparição de mulheres escritoras e apoiou algumas delas, como Eduarda Mansilla. Ao mesmo tempo, foi um sujeito que disse coisas como o trecho da carta a Bartolomé Mitre, sempre citada, “não poupe o sangue dos gauchos porque é o único que têm de humano”. Quando sabemos que foram os gauchos que fizeram a independência na América hispânica toda, chame de gauchos, cholos, campesinos. Sem esse apoio popular teria sido difícil a independência.

Lucio Mansilla teria uma outra forma de ver os povos originários na Argentina, não?
Tanto ele quanto sua irmã, Eduarda Mansilla, têm um olhar complexo e duplo, contrapesando sempre os dois mundos. No caso dela há uma tensão que não está clara que talvez esteja ligada ao que hoje se chama de uma perspectiva de gênero, pois se ocupa de um outro lado desses relatos épicos, abordando as mulheres que estavam atrás dos heróis. Mulheres que os esperam, que perdem seus filhos, que ficam viúvas e se viram como podem, mulheres analfabetas que não têm como educar-se, ainda que ricas. O olhar deles muda de um mundo ao outro, mas possui mais tolerância, de comparação e valorização do outro, ou seja, é um olhar mais integrador e não binário como o de Sarmiento, que separa ou pretende separar um mundo outro e eliminar esse outro. Em um artigo eu falo da “Argentina completa”, sobre os irmãos Mansilla, para sair dessa armadilha dicotômica formadora através de um olhar que tenta resgatar certa multiculturalidade possível. Lucio Mansilla é capaz de ver, naquela época, que existe uma cultura indígena e que nela há valores que inclusive podem ser superiores aos da sociedade chamada de civilizada. Na obra de Eduarda aparecem negros, por exemplo. Na literatura canônica eles foram eliminados, ou aparecem como animais, como em O Matadouro, de Esteban Echeverría.

Onde a oposição civilização e barbárie aparece na literatura, desde então, de forma destacada?

A verdade é que está em todos os lados na literatura e pode estar reafirmada ou resignificada. É uma característica fundacional que seguiu marcando a literatura. Está muitíssimo em Jorge Luis Borges, em contos como Sul, O fim, A intrusa, A festa do monstro [onde o “monstro” do título é Juan Domingo Perón e os bárbaros identificados como sua base social] e em uma dezena de outros. Aparece em um livro clássico Sobre heróis e tumbas (1961), de Ernesto Sábato. Está também em Adán Buenosayres (1948), de Leopoldo Marechal, de forma resignificada. Aparece em toda a literatura que faz referência ao peronismo, para o bem ou para o mal. Um livro do qual gosto muito é Cabecita negra (1962), de Germán Rozenmacher, onde também inverte essa polaridade. Eu acho que não há livro de ficção de alguma importância na Argentina que de alguma maneira não passe pelo binômio. 

No Brasil há um mito de que somos o país do futuro. Na Argentina há o mito de que no passado houve esse momento em que o país poderia ter se tornado uma potência, mas perdeu a oportunidade e então é necessário escolher os bodes expiatórios para isso, que seria justo esse elemento “bárbaro”.

Sim, sempre estão buscando os culpados para entender quem tem a culpa. O que aconteceu com a gente? Se o país prometia tanto, como caímos tão baixo. Isso se perguntam. No século 19, antes do momento de grande crescimento, que vai de 1880 a 1920, a ideia que dominava era que para sair do atraso o elemento não branco, ou seja, o aborígene, deveria ser eliminado. Há também rechaço aos imigrantes não anglo-saxões, como espanhóis e italianos, como faz Eugenio Cambaceres em En la sangre, um livro naturalista que coloca os italianos incultos que chegavam como um elemento retardatário e que ia corromper a Argentina, e como tinha como valor a ascensão social sem escrúpulos, ia corromper as classes altas também. Isso ocorre depois de 1880, pois o que se acredita antes é que para se construir a Argentina deveria se eliminar o elemento indígena. Quando a imigração começa a aumentar muito, começa a existir resistência aos bárbaros imigrantes. Mas repito: a Argentina era poderosa e rica apenas em alguns lugares do país. As desigualdades sociais eram enormes. No interior se vivia de uma forma primitiva, sem luz, água, saneamento básico, escola, sem comunicação com outros lugares, em economia de subsistência.

Negros, indígenas, mulheres, imigrantes, peronistas... quem são os bárbaros hoje?
No imaginário da classe média e de parte da imprensa, os piqueteiros ocuparam esse lugar. São os bárbaros invasores. O fato de que continuam havendo manifestações, que geralmente mostram bastante resistência, os setores conservadores afirmam que são um bando de desocupados que não querem trabalhar e vivem às custas de subsídios do governo, que são incultos, quase selvagens – e aí se repetem os estereótipos. Mas quando escutamos eles falarem, vemos que estão longe dessa caracterização, são pessoas que sabem o que estão falando e porque estão lutando, buscam inserção, soluções coletivas, mas dentro do fascismo popular são os bárbaros da vez.

Os imigrantes latino-americanos, bolivianos, paraguaios, também, embora tenha melhorado um pouco porque eles já conquistaram seu espaço, uma comunidade forte na Argentina. Hoje despertam mais desconfiança da classe média os coreanos e chineses. Outro grupo que entra na categoria de bárbaros hoje são os catadores de papel. Em Buenos Aires, não existiam pessoas que viviam de lixo. Nunca a miséria urbana foi tão visível nos centros da cidade. Hoje, quando cai a noite, quando a cidade para de funcionar, todos os executivos vão embora, aparecem verdadeiros exércitos de gente para mexer no lixo. E são pessoas que não estão em nenhuma estrutura formal, não têm direitos sociais, e seguramente vivem mal. Esses são os novos bárbaros que invadem a cidade, como os peronistas antes. Meu marido é de Missiones e sempre diz que de fato o peronismo significou uma mudança enorme na vida, um antes e um depois, pois a economia rural era de subsistência, não havia dinheiro circulante, escolas, hospitais. Isso apareceu com o peronismo apenas. Quando se fala na grandiosidade da Argentina na década de 20 e 30, que país tão rico que podíamos ter sido. É irreal isso. Missiones era, por exemplo, um dos bolsões de pobreza do país, onde não havia nada. Havia uma região mais rica, onde está a cidade de Buenos Aires, mas a desigualdade regional era enorme.





Maria Rosa Lojo é professora de literatura argentina da Universidade de Buenos Aires (UBA), pesquisadora e escritora, autora de livros de poesia e ficção, como La princesa federal, Una mujer de fin de siglo, Finisterre.





Facundo – Civilização e barbárie  – Recentemente publicado em português, é um livro escrito por Domingo Faustino Sarmiento, em 1845. O texto é, ao mesmo tempo, um ensaio histórico e um panfleto político. Começa com a descrição da geografia rural e dos tipos humanos por ela gerados para, depois, passar à crônica histórica do caudilho popular Facundo Quiroga.

Depois da descolonização, sobreveio um período de guerra civil que opunha federais, apoiados por proprietários rurais junto com os gauchos iletrados, e unitários, apoiados pela elite letrada e os comerciantes do porto de Buenos Aires. Facundo, caudilho federal, surge, no texto de Sarmiento, como encarnação dos tipos humanos do llano, a planície semi-árida do interior argentino. As teorias climática e racial eram o terreno ideológico desse “enredo”. Para Sarmiento, o “deserto”, a planície infinita, só podia ser cenário e causa da barbárie americana. A cidade era entreposto da civilização, que, no texto, se confunde com a civilização europeia.

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