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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Artigo: Luciano Alvarenga


O pavor da Classe Média


Por trás da campanha de ódio, de preconceito e de desinformação realizada na internet durante o processo eleitoral e aprofundada no final do primeiro turno, está a crise de identidade da classe média tradicional brasileira. Apoiada em ideias moralistas difusas assentadas especialmente no tema do aborto e da união civil gay o que pretendeu esta classe social foi estimular um sentimento religioso da massa do povo para catalisar votos contra esta mesma massa que ela não entende nem quer por perto.

A identidade da classe média brasileira nunca foi marcada por um projeto ou visão de nação a partir do qual pudesse se orquestrar as outras classes sociais. Ao contrário, sua identidade esteve sempre ligada àquilo que o povo não possuía em oposição às possibilidades materiais da classe média. Carro, enquanto o povo anda de ônibus, casa própria, enquanto o povo mora de aluguel ou de favor, eletrodomésticos, enquanto o povo no máximo possuía um rádio, título universitário, enquanto o povo é analfabeto. Estes elementos sempre foram mais do que uma aquisição material, sempre foram uma marca simbólica do status desta classe. Num país pobre e de pobres, ser classe média é quase uma nobreza.

O pavor desta classe sempre foi decair economicamente. Seu pior pesadelo seria acordar na massa do povo tendo que compartilhar sua cultura, seus costumes, sua religiosidade, sua maneira de ver o mundo. Por isso sempre conservadora politicamente, e certamente sempre mais disposta ao radicalismo político à direita como forma de barrar qualquer tentativa de mudança no status quo social e econômico do país. 1964 – o golpe – é isso, o pavor de ver a sociedade transmutar em algo que possa significar uma mudança na ordem das coisas. Escola particular e saúde privada é mais do que a simples ostentação de quem pode pagar o que é oferecido gratuitamente no sistema público, é manter-se afastado da massa do povo, manter-se distanciado de uma realidade que não se quer conhecer nem considerar tal o pavor de ao menos imaginar um dia fazer parte dela.

Cheia de preconceito e entendimento distorcido da realidade do país, nunca aceitou o Lula, o analfabeto, por menos analfabeto que seja o presidente. A classe média tradicional odeia o Lula e o destrata e não o reconhece, porque Lula é a lembrança todo tempo daquilo que esta classe no fundo é – analfabeta, desinformada, ignorante, aparente, hipócrita, e sem profundidade. Toda ordem de defeitos e somenos a que taxam o presidente é caso a caso a própria descrição desta classe. Odeiam o Lula na mesma medida em que se inspiram por FHC. Fernando Henrique o intelectual, o poliglota, o cosmopolita, aquilo que a classe média gostaria de ser e não é.

Este ódio por Lula chegou aos 40 graus de febre agora na campanha porque apenas agora a doença se desenhou claramente - a crise de identidade da classe média. Se o temor era cair para a massa do povo, e tendo em vista que tal não ocorreu, acabou acontecendo algo que é de igual gravidade, uma massa de milhões de pessoas deixaram a condição de pobreza e vieram se juntar à classe média. A festa que era quase VIP virou samba. A cidadania política, sempre negada ao povo, e ainda não conquistada plenamente, deu espaço à cidadania do consumo, ou aquilo mesmo que dá identidade à classe média.

Comprando carro, casa, eletrodoméstico, viajando e fazendo faculdade privada, o povo misturou-se à classe média tradicional desfazendo as marcas da identidade desta. De repente, o carro de 100 mil reais ou mais se engarrafa ao lado de outro popular comprado a prazo. Fernando de Noronha, Lençóis maranhenses deixaram de ser exclusivos e esperam todos que agora viajam lado a lado nos mesmos aviões apertados com passagens vendidas em 10 pagamentos.

A classe média assiste estarrecida e horrorizada à sua identidade se desfazendo enquanto ela mesma se dilui neste mar de gente recém chegada a esta nova realidade. O ódio que vimos nesta campanha contra Lula e Dilma é o ódio de quem ao mesmo tempo em que acompanha o próprio enterro assiste a outro decidir em qual caixão prefere que enterre o defunto. A crise da classe média vai junto com a crise de um mundo todo de coisas que não mais se sustentam, as profissões liberais, por exemplo.

A classe média terá que se reinventar, o que não será fácil. Mas antes disso certamente vai endurecer, tornar-se ainda pior e mais reacionária como forma de defender sua identidade esfacelada, e um lugar no imaginário social brasileiro. Sem representantes políticos autênticos, sem uma marca subjetiva que vá além dos seus bens materiais, veremos um grupo social disforme agindo de forma radical e rancorosa especialmente na internet. Mas tendo que aceitar que as eleições a partir de agora serão definidas preponderantemente pela nova classe C.

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