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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Partido da imprensa golpista

Partido da imprensa golpista

Luciano Alvarenga

Duas coisas emergem como fundamentais destas eleições: a necessidade de uma reforma política e uma reforma da mídia. A reforma política é uma unanimidade, a reforma da segunda, nem tanto. Entretanto, a segunda é tão urgente e necessária quanto a primeira.

Desde as Diretas Já, ou pelo menos desde a abertura democrática nos anos 80, a mídia vem se transmutando naquilo que ela é hoje. É bom lembrar que os principais veículos de mídia apoiaram o golpe militar em 1964. E muitos deles se transformaram no que são à sombra da ditadura, é o caso da Globo.

Entretanto, foi com o impedimento do presidente Collor em 1992 que a mídia perdeu a inocência. A eleição deste presidente com apoio velado ou não dos órgãos de imprensa deixou claro aquilo que já se sabia, a força da mídia nacional, mas foi sua derrubada do poder que deixou mais claro ainda até onde poderia ir a imprensa brasileira.

Desde o impedimento do presidente Collor, a grande mídia passou a se encarar como uma força acima das leis, da democracia e das instituições. Ainda que o movimento “Caras Pintadas” tenha dado o pontapé inicial da campanha desestabilizadora do presidente, foi quando a mídia entrou na campanha que o desfecho passou a ganhar o desenho que se configurou mais tarde. Colocar e tirar presidentes do cargo não é qualquer poder que consegue. A eleição e derrubada do Collor parecia ser a prova dos nove para a grande mídia saber até onde podia ir com o seu poder de manipulação.

A partir de então, a mídia passa a definir agenda, impor discussões e direcionar as prioridades na política e fora dela. O congresso nacional e a classe política, que já vinha num processo de corrosão de credibilidade, passaram a caminhar a reboque das manchetes, não raras vezes atuando em resposta a denúncias e escândalos ecoados pela grande imprensa.

A impressão que se tinha, num certo momento, é que a mídia caminharia para desempenhar um grande papel, como mediadora e interlocutora da sociedade no debate político. O que se viu, no entanto, foi o oposto disso, a mídia, dos anos 90, para cá assume cada vez mais uma posição corporativista, deslocada dos interesses da sociedade e em consonância apenas com seus próprios interesses políticos e empresariais.

O escândalo do “mensalão”, em 2005 – do qual ainda hoje pouco se sabe sobre sua extensão, sua profundidade, quem realmente envolvia e qual papel e importância tais pessoas possuíam no esquema, ou mesmo se o esquema tinha o desenho que a grande imprensa lhe deu –, é visto hoje como mais um exemplo dos movimentos da grande imprensa no sentido de desestabilizar o presidente Lula envolvendo-o num enredo de corrupção que visava deslegitimá-lo e impedi-lo de seguir na presidência. O ex-líder sindical, agora em fim de mandato, e que agora conhecemos melhor pelo projeto desenvolvido nestes anos, não era o desejo da elite brasileira.

Na falta de força e nomes na oposição que pudessem catalisar os descontentes com o governo, fazer-lhe oposição, o que vimos foi a velha mídia assumir definitivamente o papel de partido político e partir para cima do governo não mais como imprensa interessada nos meandros do poder, mas desejosa de derrubar o governo.

A forma como o “Mensalão” foi tratado pela grande imprensa evidenciava a vontade de defenestrar o presidente e o seu partido do poder. É claro que a ninguém ocorreu que tais coisas seriam um golpe contra a democracia e os mais de 50 milhões de votos de Lula em 2002.

Na falta de oposição, de discurso, de projeto de poder, só restava o golpe de Estado via imprensa golpista. O que ocorre agora, às vésperas da eleição em que a candidata do governo, Dilma, possui mais de 50% das intenções de votos, com grande probabilidade de ganhar a eleição no primeiro turno, é novamente a tentativa de desestabilizar o país para mudar os rumos eleitorais. A crise na Casa Civil e a quebra de sigilo nada mais são do que questões de somenos que devem ser tratadas pela polícia e órgãos competentes, no entanto a velha mídia joga gasolina nos acontecimentos no sentido de lhes dar significados que não possuem.

A questão de fundo, entretanto, não é apenas política, é empresarial. A velha mídia vê sua hegemonia no país, afinal toda ela está nas mãos de 5 ou 6 famílias, ameaçada pelas reformas de mídia em andamento no governo que permitirão que outras empresas, estrangeiras inclusive, além das telefônicas, passem a atuar no ramo de imprensa e de televisão. Ou seja, os cinco órgãos de imprensa dominantes no país terão que disputar espaço e concorrência com novas empresas. O problema, além do poder político que estará nas mãos da esquerda por mais 4 anos, é o fato de que novas regras entrarão em vigor no Brasil para regular a mídia, e a velha mídia não quer porque se sente ameaçada.

Levar a eleição para o segundo turno, mesmo que o candidato da oposição seja inexpressivo, pouco convincente e não tenha cativado o eleitorado porque não possui nenhum projeto para o país, é condição fundamental para a imprensa conseguir criar os escândalos necessários para impedir uma vitória da Dilma que certamente significará o fim de sua ação como poder acima do bem e do mal no Brasil. Mas não imaginem que a vitória da Dilma possa significar a diminuição dos ânimos golpistas da velha mídia, o clima de terrorismo e terra arrasada irá continuar. Luciano Alvarenga

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