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terça-feira, 14 de setembro de 2010

A angústia de ser mulher, hoje

 

 

Mergulhadas em exigências, mulheres morrem sós à janela

por Luiz Felipe Pondé, para a Folha

Sou um tanto maníaco por detalhes. Às vezes, me pego pensando em Walter Benjamin, o grande pensador judeu alemão que se suicidou durante a Segunda Guerra Mundial, e entendo sua obsessão pelos detalhes do mundo.

A matéria de que é feita a consciência muitas vezes se encontra nos detalhes, principalmente nos restos do mundo, restos ridículos de um mundo em clara agonia. Hoje vou dar um exemplo de como uma migalha do mundo pode ser representativa do nosso ridículo.

O detalhe ridículo de hoje se refere a um novo movimento de conscientização que nasce. Vejamos.
O que haveria de errado em mulheres que querem atrair os homens e por isso se fazem bonitas? Macacas atraem macacos, aves fêmeas atraem aves machos.

Mas parece haver umas pessoas por aí que acham que legal é ser feia. É, caro leitor, se prepare para a nova onda feminista: mulheres peludas. Para essas neopeludas que não se depilam ter pelos significa ser consciente dos seus direitos.

Quais seriam esses "direitos"? De ser feia? De parecer com homens e disputar o Prestobarba de manhã? Antes, um reparo: "direitos" hoje é uma expressão que serve para tudo. Piolhos terão direitos, rúculas terão direitos, ratos já têm direitos. Temo que apenas os machos brancos heterossexuais não tenham direitos.

Pensou? Machista! Desejou? Machista! Deu um presente? Machista! Se você aceitar ser eunuco, obediente, desdentado e, antes de tudo, temer a fúria das mal-amadas, aí você será superlegal. De repente, elas exigirão uma sociedade onde todos terão seu Prestobarba. Cuidado ao passar a mão nas pernas delas porque será como mexer nas suas próprias pernas.

Estou numa fase preocupado em ajudar o leitor a formar um repertório que escape do blá-blá-blá mais frequente por aí. Por isso, nas últimas semanas, tenho indicado leituras. Proponho hoje a leitura de "Feminist Fantasies" (fantasias feministas), de Phyllis Schlafly, cujo prefácio é assinado por Ann Coulter, a loira antifeminista que irrita a esquerdinha obamista, antes de tudo, porque é linda, com certeza.

Para piorar, Ann Coulter é inteligente e articulada. Mas, em se tratando de mulher, é antes de tudo a inveja pela beleza da outra que move o mundo a sua volta.

Dirão as ideólogas do "eunuco como modelo de homem" que a culpa é nossa (masculina) porque as mulheres querem nos seduzir e, aí, elas se batem na arena da sedução. Mas, se elas não quiserem nos seduzir, qual seria o destino de nossa espécie? Para que elas "serviriam"? Deveriam elas (as que querem ser bonitas para nós homens) ser condenadas porque são normais?

O primeiro artigo deste livro é já uma pérola de provocação: "All I Want Is a Husband" (tudo o que quero é um marido).

Contra a "política do ódio ao macho", nossa polemista afirma que a maioria das mulheres, sim, quer, antes de tudo, amor e lar.

Quando elas se lançam na busca do amor e sucesso profissional em "quantidades iguais", mergulham numa escolha infernal (a autora desenvolve a questão nos ensaios seguintes) que marca a desorientação contemporânea. O importante, antes de tudo, é não mentirmos sobre isso e iluminarmos a agonia da vida feminina quando submetida à "política do ódio ao macho".

A vida amorosa nunca foi feliz. E nunca será. Mas a mentira da "emancipação feminina" é não reconhecer que ela criou novas formas de vida para a mulher em troca de novas formas de agonia.

Diz um amigo meu que, pouco a pouco, as mulheres se tornam obsoletas. Por que não haveria mais razão para investir nelas?

Conversando sobre esses medos com alunos e alunas entre 19 e 21 anos, percebi que muito da "obsolescência da mulher" é consequência de três queixas masculinas básicas: 1. Elas são carreiristas; 2. Não valorizam a maternidade; 3. Não cuidam da vida cotidiana da família.

Associando-se a este "tripé", o fato que elas começam a ganhar bem, nem um "jantar" é preciso pagar para levá-las à cama. Resultado: a facilidade no sexo de hoje é a solidão de amanhã.

Mergulhadas em suas exigências infinitas, morrem à janela, contabilizando as horas, contemplando o próprio reflexo.



A angústia de ser mulher
Luciano Alvarenga
As mulheres estão sendo enganadas pela história. Escaparam da tirania machista de uma cultura assentada no masculino e caíram na tirania de que ser mulher é ser multimulher. Entre o lar opressivo de ontem e a opressão da eficiência em tudo que faz, a mulher não sabe o que decidir.
Esmagadas pela cobrança, tácita ou não, da maternidade num invólucro com prazo de validade vencido, o casamento, as mulheres brasileiras ainda não completaram historicamente o que suas homônimas já fizeram nos países ocidentais avançados. As mulheres ocupam 60% das vagas nas universidades brasileiras, em breve serão maioria no mercado de trabalho (nos Estados Unidos já são). Aliás, em alguns anos talvez ganhem mais do que os homens. Entretanto, o que mais se ouve em sala de professores, cafezinho de empresa e bate-papos é quase um uníssono de reclamação por parte delas, de que não estão contentes, muito menos satisfeitas.
Cada vez mais presentes no mercado de trabalho, ainda não conseguiram se desligar do espaço doméstico. São cada vez mais competentes e cada vez mais presas emocionalmente. Os filhos ainda são uma responsabilidade emocional (e também material) mais da mulher do que homem. Pressionadas por padrões de beleza inatingíveis, convertem-se em algozes de si mesmas, cobrando perfeição e jovialidade a cada ruga, gordura ou cabelos brancos que nelas surjam. A liberdade sexual se converteu em mais sofrimento, na mesma medida que liberada no discurso não consegue sê-lo na prática nem sentimentalmente. Ou, liberadas sexualmente, mas oprimidas pela idade.
Numa sociedade de consumo cada vez mais ajustada aos interesses da mulher, ela se transformou no consumidor ideal, compra compulsivamente e compra justamente aquele modelo inatingível, e quanto mais inatingível maior o esforço de continuar comprando. Estressada pelas cobranças na rua e em casa, pela empresa e pelos filhos, sobra-lhe a infidelidade de ambos. O emprego num mercado de trabalho global não é e nem pode ser garantido; em casa, a distância dos filhos, a impossibilidade crônica de estar por perto, quando a vida impõe distâncias, terminam por gerar mães ansiosas e filhos inseguros.
A mulher brasileira não sabe como conciliar, se é que é possível, família e futuro, o seu futuro. Se investir na família, ainda sim precisa continuar sexualmente atraente e com um pé no mercado amoroso, uma vez que nada garante a estabilidade do seu casamento. Se investir demais na família, perde espaço no mercado de trabalho, o que pode ser fatal. Investimento em família significa recurso emocional em torno de um projeto coletivo; envolvimento emocional é uma amarra que quando consensualmente aceita por ambos dá bons resultados, mas se um dos dois roer a corda, o outro arca com as consequências psíquicas de um projeto falido.
A falência de um casamento para a mulher costuma lhe acarretar maiores prejuízos. Dependendo do tempo, da quantidade de filhos (um ou dois), da idade, ela pode estar em grande desvantagem para o recomeço numa nova relação. A idade favorece mais o homem do que a mulher, o homem mais velho goza do prestígio e do charme que lhe recai pela idade; a mulher mais velha, numa sociedade assentada na beleza juvenil, perde valor e atrativo à medida que o tempo passa. Não fosse só isso, ainda sofre o machismo de arcar com o peso da separação numa cultura que sobrevaloriza o casamento e o matrimônio. Separada, mais velha, com filhos e sem garantias.
Sendo esse o pano de fundo onde atuam as mulheres, a maioria ainda quer casar e ter filhos e, se não os quer, não diz, nem se afirma em outra direção. Na rua e no mercado de trabalho, mas esmagadas pela pressão do lar, do casamento, dos filhos e da família. Sem poder voltar para casa, nem conseguindo completar sua saída, as mulheres vivem uma situação paradoxal no Brasil; a família se esvaziou e perdeu significado, a mulher perdeu o lugar e ainda não tem outro, aliás, tem, é o mercado de trabalho que vê nela mais qualidades para serem exploradas do que possui o homem. Nesse sentido, a mulher brasileira está entre o lar sem significado e o mercado de trabalho que mais oprime do que liberta.
O tempo histórico é o das mulheres, mas é também um tempo dominado pelo mercado de trabalho desregulado e liquefeito e onde a mulher caminha a passos largos para ser a maioria. A questão mais intrigante neste momento talvez não seja exatamente sobre o que elas ganharam nestas décadas, e sem ironia, ganharam muito, mas o que perderam ou, ainda, precisam ganhar.
Luciano Alvarenga, Sociólogo.

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