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sábado, 14 de agosto de 2010

A alma do Futebol


Por Eder Juno

O IRMÃO PEQUENO DA GUERRA


Nas noites de quarta feira e nas tardes de domingo, praticamente o ano todo, abandonamos tudo para observar as pequenas imagens em movimento de 22 homens – colidindo uns com os outros, caindo, levantando e chutando um objeto alongado feito com a pele de um animal. Tanto jogadores, quanto os espectadores sedentários são levados ao êxtase ou ao desespero pelo caminhar do jogo. Torcem ou resmungam em uníssono, parados diante das telas de vidro.

Pode até parecer estúpido descrevendo desta forma, mas quando se adquire o gosto pela coisa, é difícil resistir.

Os atletas correm, saltam, batem, lançam, deslizam, chutam, derrubam – e há uma emoção em ver os humanos fazerem tudo isso tão bem. Eles brigam entre si até caírem no chão. Gostam de agarrar, tacar ou chutar um veloz objeto redondo.

O trabalho em equipe é quase tudo, e admiramos como as partes se encaixam para formar um todo triunfante. Todos deliram por aquilo que é chamado “gol’.

Mas essas não são as habilidades com as quais a maioria de nós ganha o pão de cada dia. Então por quer nos sentiríamos compelidos a observar? Por que essa necessidade aparece em todas as culturas? (Os egípcios, persas, gregos, romanos, maias e astecas)

Existe algo relacionado com patriotismo e orgulho cívico. O nosso time nos representa - o lugar de onde viemos, embora os jogadores mudem de time por dinheiro. Há craques dos esportes que ganham cinqüenta vezes o salário anual do presidente Lula.

Mas por que exatamente? Há algo nesta questão que transcende a diversidade dos sistemas políticos, social e econômico. Algo que tende a nos atrair.

Os esportes competitivos são conflitos simbólicos, mal disfarçados.

Há uma conexão entre o esporte e o combate. Fala-se de ganhar ou perder uma guerra tão naturalmente como falamos de vencer e perder um jogo. Perder é como morrer.

Prestes ao início da Copa Mundial de Futebol, e o que marca a personalidade do técnico da seleção Brasileira, é seu espírito “guerreiro”.

Os esportes de equipe não são apenas ecos estilizados das guerras antigas. Também satisfazem um desejo quase esquecido de caçar. Como as nossas paixões pelos esportes são tão profundamente e tão amplamente distribuídas, é provável que façam parte de nosso hardware – não estão em nossos cérebros, mas em nossos genes.

Os 10 mil anos que se passaram desde a invenção da agricultura não são tempo suficiente para que essas predisposições tenham evoluído e desaparecido.

A espécie humana tem centenas de milhares de anos (a família humana tem vários milhões de anos). Levamos uma vida sedentária – baseada no cultivo da terra e na domesticação de animais – apenas nos últimos 3% desse período, no qual se encontra registrada toda a nossa história. Nos primeiros 97% de nossa existência sobre a Terra, quase tudo o que é caracteristicamente humano veio a ser.

Durante milhões de anos nossos ancestrais masculinos andaram correndo por toda parte, atirando pedras nos pombos, perseguindo filhotes de antílopes e agarrando-os em luta corpo a corpo, formando uma única linha de caçadores a correr e a gritar contra o vento para aterrorizar uma banda de javalis perplexos.

Não que a maneira de lascar a pedra para formar a ponta de uma lança ou o modo de emplumar uma flecha esteja em nossos genes. Tudo isso é ensinado ou inventado. Mas sim o gosto pela caçada faz parte do nosso hardware. A seleção natural ajudou a transformar nossos ancestrais em caçados magníficos.

Depois de 10 mil gerações em que a matança de animais foi a nossa defesa contra a ameaça de morrer de fome, essas inclinações ainda devem estar conosco. Sentimos vontade de empregá-las, mesmo vicariamente. Os esportes de equipe nos fornecem um meio de satisfazer esse desejo - o suborno dos genes, já necessário para a sobrevivência.

Alguma parte de nosso ser deseja se juntar a um pequeno grupo de irmãos para realizar uma aventura ousada e intrépida. Existe uma predisposição natural tanto para a caça quando para o trabalho em equipe que vai aparecer em muitos meninos recém nascidos.

Podemos observar essa característica nos jogos de computador, e nos RPGs que fazem sucesso entre crianças e adolescentes. Embora quase tenhamos nos esquecido da razão.

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