Redes Sociais conectam ideias e visões de mundo

domingo, 19 de novembro de 2017

Ódio: quem plantou?

Luciano Alvarenga
Uma olhada rápida pelos sites e blogs de esquerda, mas também nos jornalões, e você verá um uníssono discurso contra o ódio; mais precisamente contra o ódio que supostamente estaria destilando a direita. De repente, toda expressão de repúdio, de negação ou de não aceitação das expressões liberticidas da esquerda, tornaram-se expressão de ódio. Mas antes de continuarmos nessas linhas convém retroagirmos pra melhor entendermos o que está acontecendo.
Falar em ódio num país miscigenado e sincrético como o Brasil já é imensamente discutível, lembrar Gilberto Freire nesse ínterim é mais que suficiente. O Brasil é fruto de tudo e qualquer coisa, menos do ódio, mas chama a atenção como a esquerda está sempre falando em ódio, é sempre ela que traz esse sentimento à tona, quase um ato falho.
Nos últimos quarenta anos, a esquerda só fez disseminar o ódio. Primeiro o ódio contra o país e o desejo de instalar uma ditadura comunista nos moldes cubanos, em nome da ditadura do proletariado lutava ela contra o regime militar explodindo bombas, fazendo guerrilhas rurais, matando gentes de todos os lados, inclusive comunistas desertores, sequestrando, torturando e mais o que fosse necessário. No momento mesmo que tudo fazia nesse sentido, transmutou seu discurso em liberdade e democracia.
E foi falando em liberdade e democracia que lançava pobres contra os ricos, empregados contra os patrões, mulheres contra os homens, negros contra os brancos, gays contra os heteros, ateus contra os religiosos, filhos contra os pais, jovens contra os velhos, os doentes contra os saudáveis, os sem terra contra os com terra, trabalhadores sindicalizados contra os sem sindicatos, índios contra os brancos, favela contra o asfalto, gays militantes contra os enrustidos, os analfabetos contra os alfabetizados, a massa contra o erudito, os subordinados contra seus superiores, alunos contra os professores, os pais contra a escola, os feios contra os bonitos, os obesos contra os magros, os burros contra os inteligentes, e a lista não tem fim e aumenta sem parar. Quarenta anos de semeadura de ódio todos os dias, todas as semanas, o ano inteiro sem parar um momento sequer. Ser de esquerda era um salvo conduto moral que autorizava todo tipo de impostura, violência, cinismo, vulgaridade, destruição dos valores nacionais em nome da rebeldia, e fez isso e isso ensinou a praticar nas escolas, nas igrejas, nos jornais, nas mídias, na TV e na universidade e, em todo lugar e a isso deu o nome de mudança, de justiça social e liberdade contra a opressão.
Violentamente fez tudo àquilo, goela abaixo de uma sociedade, que atônita, assistia a tudo num misto de espanto e ingenuidade, a audácia na ação dos assaltantes, que com propósitos tóxicos camuflados em discursos generosos e convincentes empunham os ferros da escravidão na sociedade inteira. Pois não é outra coisa o que aconteceu. Educação, somos a segunda pior do mundo; homicídios, somos um dos que mais matam no planeta; drogas, somos o maior consumidor de drogas da América Latina; ante depressivos e ritalina já consumimos mais que qualquer outro país no mundo, com exceção dos Estados Unidos; escritores, artistas, intelectuais já não temos mais nenhum, desaparecemos do mapa intelectual e literário mundial; desenvolvimento tecnológico, somos uma piada internacional; crime organizado comanda parcelas cada vez mais extensas do Estado; produção cientifica, nem consideram que aqui se faça ciência, etc, etc, etc. Se isso não é escravidão, imposta pelos meios os mais violentos, não sei mais o que seja.
Mas, a esquerda, especialista na arte da dissimulação, da mentira, do cinismo e da enganação, rapidamente apossou-se da bandeira da violência pra gritar nas redes, blogs e jornais que a direita dissemina o ódio por onde passa. Vai, vociferando sem parar, construindo a nova mentira “mudamos o país e agora o ódio se lança contra nós”. De semeadores do ódio, de cultivadores de toda cizânia, de todo caos e divisão, denunciam as vitimas pelo estado geral em que o pais se encontra. Afirmam isso pra que nem mesmo a reação possa ser tolerada, nem mesmo o mínimo de esforço de reconstrução da nação possa ser tentado. Quarenta anos odiando e ensinando crianças, adolescentes e jovens a odiar também, são agora lançados contra um país atônito diante de tanta desfaçatez.
A esquerda odeia e seu discurso e sua prática é o ódio, por que ela odeia a civilização, odeia o homem e a mulher, odeia o engenho humano, sua capacidade de cair e levantar, fazer e refazer, construir e reconstruir, tecer passado e futuro generosamente numa dança que ocorre nos séculos e que ela não entende, não aceita e contra isso se revolta. Ser de esquerda é se negar ser artesão na construção da vida, ser parte de uma narrativa na eternidade da história; não, eles querem perverter, revolucionar, destruir tudo e serem os autores de algo novo agora; se pretendem mais inteligentes, preparados e astutos que todas as gerações nas centenas de anos que nos antecedem e que nos legaram o que somos.
Vencer o ódio da esquerda é um gesto de amor com a humanidade, com as gerações passadas e com as gerações vindouras. 





quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sem chão nem utopia

Luciano Alvarenga
A grande promessa da modernidade foi oferecer liberdade contra tudo e qualquer coisa que pudesse impedir os indivíduos de fruírem a vida sem amarras.
Podemos dizer que, tal liberdade foi conquistada plenamente, e ainda que alguns resquícios de passado, com suas imposições e limites ainda resistam, derretem rapidamente nesse momento; não deixando atrás de si nada que possa servir como estandarte pra novas rebeliões. Não há contra o quê se rebelar.
Todos os sólidos do passado, seja moral ou secular, estão liquefeitos; ao indivíduo resta apenas o destino de se guiar, tendo a si mesmo como referência.
Ao mesmo tempo em que goza de todas as liberdades, vividas ou sonhadas, realizadas ou posta como possibilidade, o que se desenha nas pegadas daquele indivíduo é o medo, o receio, a insegurança, a incerteza em relação a si mesmo e aos seus destinos possíveis.
A própria ideia de destino nada mais é que uma imagem, uma ilusão de quem ainda pensa que se guia de acordo com alguma referência. Religião, moral, tradição, passado, nem mesmo a sociedade ideal, nada há mais que possa ser demandado como fonte, como manancial inspirador pra vida que se queira viver.
Dessa realidade, ou em outras palavras, a realização das promessas da modernidade, a única coisa que se coloca diante da atualidade é a liberdade do indivíduo de fruir sua liberdade conquistada.
A liberdade, entretanto, tem sua contraface, a insegurança. Se o mundo sólido do passado deixava pouca margem de manobra, envolvia o indivíduo nas cordas apertadas da tradição, da comunidade, oferecia a este a segurança num mundo desenhado pra ser previsível.
Na sociedade contemporânea o emprego é volátil, a comunidade é digital, o amor é fugaz, a educação é uma demanda permanente de grupelhos ideológicos, que inocentemente imaginam o mundo a partir de suas abstrações. Não há nada além de si mesmo que possa ser reivindicado como plataforma pra uma vida mais segura.
Dessa constatação, emerge o indivíduo e as dores da liberdade. Sem passado, sem futuro, porque mesmo esse deixou de ser possível ante o derretimento das utopias, sejam políticas ou materiais, o indivíduo sente explodir no corpo os sintomas de sua libertação.
Angústias, depressões, medos, fobias, vícios, tudo isso é ao mesmo tempo a nova realidade que cerca, e a vida que precisa ser enfrentada. Sem sólidos em que se apoiar, o indivíduo da modernidade líquida precisa mais que tudo encarar-se a si mesmo, olhar pra dentro de si, e encontrar nele mesmo a solidez, a única que resta, como ponto de apoio e referência na sua caminhada.
O indivíduo comunitário do passado precisava apenas aceitar os destinos prontos e definidos; o indivíduo contemporâneo precisa criá-los. A modernidade deu aos contemporâneos, aquilo que, talvez, eles nunca tenham querido, responsabilidade para consigo mesmos. Se a mediocridade da vida no passado poderia ser acusada como a responsável pela vida que não se tinha, ao indivíduo, agora, resta encarar, sem meios de não fazê-lo, aquilo que é, solitário e com medo.
A modernidade libertou os indivíduos e os deixou sozinhos. A liberdade de ser o que bem se queira, de não ser nada inclusive, mas certamente, de arcar com as consequências de qualquer direção que se tome.
Conhecer-se a si mesmo, um velho adágio socrático, é mais contemporâneo que nunca. Destituído de qualquer crença ou tradição, o indivíduo tem a si mesmo como obra a ser realizada. O indivíduo é obra de si mesmo, precisa se ver dessa maneira, entregar-se a essa tarefa, e dar a essa tarefa a simbologia necessária para viver.
Não crer, não amar, não acreditar tornou-se a única maneira de amar, crer, e acreditar e, assim, de viver.
Empreender-se a si mesmo, buscar no íntimo as razões que valem a pena, é a única tarefa nobre o suficiente na sociedade atual.
Medos, Angústias e depressões são apenas sintomas dessa nova realidade, e assim devem ser vistas; não como um mundo que destina ao fim, mas um indivíduo que precisa encarar-se a si mesmo em busca dos seus próprios significados.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A dor é filha do cuidado que não houve

Luciano Alvarenga

Se observarmos uma macaca com seu filhote, uma leoa da mesma maneira, cercada pela presença permanente do macho alfa do grupo, veremos que toda a sua atenção, toda a sua disposição está em relação ao filhote que dela pouco se desgruda. Cuidar desse filhote é condição primeira pra existência do grupo, para o crescimento saudável e aprendizado necessário da cria, pro mundo que viverá e do qual fará parte. A mãe, animal, ensina tudo àquilo que é necessário ao filhote, e tudo pode ser resumir em uma palavra, cuidar.
Não consigo olhara pra sociedade brasileira hoje, sem dar atenção ao significado da palavra cuidar, no que toca as relações afetivas, ou sem afeto algum, que estão prevalecendo nessas últimas décadas.
O estado de imensa fragilidade emocional, insegurança, angustia, falta de referências identitárias mínimas a existência, um desbussolamento cardeal dos valores eternos da humanidade, uma existência marcada pelo vazio, indicados de maneira cada vez mais contundente pelas altas taxas de suicídios entre adolescentes e até crianças, mas também de homens adultos na faixa dos cinquenta anos; a dependência cada vez maior e mais dramática de remédios controladores das emoções; enfim, uma tragédia social, e certamente, civilizacional.
Cuidar é estar perto, presente, alimentar, mas não apenas isso, mas como nos ensina o psicólogo D. Winnicott, ser continente, isto é, ser capaz e pleno pra receber a ansiedade angustiada daquele que vive seus primeiros meses, e tudo depende pra começar a viver.
Cuidar é ensinar a viver, é acolher pra tarefa de tornar a vida indefesa, frágil e insegura, capaz de transitar da ansiedade à autoestima, do terror de morrer ao amor próprio, do nada que sabe ao tudo que pode ser como ser humano.
E por acaso, não são todos os males urbanos atuais, especialmente àqueles que acima me referi medo, insegurança, angústia, vazio... expressões do cuidado que não tiveram a oportunidade de receber?
E não é o abandono da criança, por causas muitas e variadas, todas elas justificadas pelos discursos libertários e libertadores, que impediu o infante de trilhar o caminho, que só a mãe suficientemente boa (Winnicott) pode oferecer. Caminho esse que se inicia, no pensar a si mesmo; que nada mais é que um bebe que consegue na presença cuidadosa e cuidadora da mãe, transformar medo, angústia e ansiedade em pensamento (W. Bion).
Pensar é o ato de tornar conhecido o desconhecido (W. Bion), é o ato em primeira linha de saber-se a si mesmo que o é (Carl Rogers). E do que mais sofremos hoje, senão de não sabermos quem somos, de nada sabermos sobre o que nos define, o que nos explica. Corpos e mentes que se pensam estarem em lugares trocados; o próprio corpo transformado em ateliê de ansiedades muitas e vazios imensos; o desejo estridente em gritar nas ruas e nas redes a verdade que pensa ter descoberto; são todos, e ainda que queiramos dar-lhes explicações sociais e econômicas, epifenómenos do Cuidar que nunca houve.
São gerações inteiras, que sem o saber, devolvem à sociedade caoticamente, confusamente, angustiadamente o resultado trágico daquilo mesmo que lhe foi imputado como avanço, progresso, liberdade e felicidade. As dores de hoje, pagas pesadamente no corpo e na alma, são resultado de um tempo em que homens e mulheres abandonaram suas próprias crias em nome de algo, que hoje não sabem mais o que é, nem mesmo se valeu alguma pena.