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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Sobre vínculos e falta de amor

Luciano Alvarenga
Alguma coisa com a qual muitas pessoas já se deram conta é com o fato de que os relacionamentos têm durado cada vez menos. Entre o interesse fulminante dos primeiros momentos, até o desinteresse completo pelo outro, o tempo tem sido exíguo.
São relações de tipo para consumo. Como consumidores sabemos por experiência, que nosso interesse se baseia em larga medida pela ideia de que o produto consumido é novo, fato fundamental, e que é algo interessante por alguma razão, seja pela embalagem, pela cor, pela textura, pelo cheiro, status que nos confere, ou qualquer coisa assim.
As relações afetivas estão certamente funcionando a partir do signo do consumo, e sendo determinadas por ele. As pessoas cansam, como nos cansam aquela calça, aquele sapato, aquele carro, aquele celular. Adestrados na ideia, de que o novo comporta algo que ainda não tenho, ou algo que posso gostar, aquela pessoa ou aquela relação que ainda não vivo, certamente é melhor do que essa que já possuo, e perdeu o frescor e o encantamento que o consumir algo novo, nos dá.
Esse é um lado da questão. Mas não, só. Relações não são naturais, são aprendidas. Amor, apego, afeto, vínculo, compromisso, responsabilidade, empatia, são capacidades emocionais desenvolvidas. Todas elas têm na infância sua gênese; é lá, do berço ao tapete, na mesa do almoço, no colo dos pais ou avós, no quintal de casa sob os olhares daqueles que nos amam, que aprendemos a amar.
Mas e quando esse cenário de amor nos falta. Quando nossa infância é marcada pela ausência, pela falta, pela terceirização do ato de amar. Quando o espaço de amor familiar é substituído pelas escolas e creches; quando olhares, sorrisos, abraços, negativas, limites, cheiros, cores, vozes daqueles que nos amam, são substituídos pelos currículos escolares, adestramentos educacionais, comportamentos padronizados tecnicamente e, principalmente, pelo fato de que somos apenas mais um, numa dada série, numa dada classe, entre todos os outros, que nada mais são, que apenas mais um.
Ao mesmo tempo em que olhamos pra crianças e adolescentes e nos parecem absolutamente normais, e são, não nos damos conta do que lhes falta. Eles, certamente sentem o que lhes falta; as crianças expressam com qualidade essa falta. Toda criança insuportável, é uma criança desesperada pelo que lhe falta, amor.
Acostumados ao longo do tempo com o fato de que são apenas um, entre todos, e que mesmo no seu ambiente familiar, pouco se importam com o que é, e do que precisa, aprende depressa e dolorosamente, a crescer sem experimentar o vínculo, o amor, o afeto, o interesse. Crescem cheias de habilidades técnicas, pedagógicas, ideológicas, políticas, mas sem habilidade afetiva, e tudo que ela implica.
Quando adultos, estão treinados a serem sós, ainda que cercados de gente; sabem olhar e serem olhados, mas não a se interessar por quem olha ou, no que olham. Se não conheceram o vínculo, não formarão vínculos no futuro, se não foram objetos de amor, não serão sujeitos de amar. Quem foi amado, aprendeu antes de tudo saber quem é, e as razões por que é amado; é esse saber-se amado que nos capacita a amar, a querer amar, a querer transmitir a outrem e no mundo, o amor que se sente e é capaz de dar.
Gentes vazias de amor, não podem amar, ou sofrem com a possibilidade do amor. Gentes que desconhecem o vínculo terão muita dificuldade em relações duradouras, ainda que não impossível.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Indivíduo contemporâneo e as dores da alma

Luciano Alvarenga
Em algum momento, pode ser na adolescência, na juventude ou, até mesmo na maturidade, as pessoas se dão conta de que estão vivendo, mas que sua vida não possui nenhum sentido profundo, transcendente, quando muito um sentido aparente.
Mergulhados numa cultura que nos desliga cada vez mais e sempre, daquilo que nos vincula ao passado,
às nossas raízes, a tradição, ou um saber espiritual milenar, nos apercebemos que somos como boias, levadas pra lá e pra cá, sem destino.
A percepção disso pode ser chamada de crise, de depressão, e vivida como alcoolismo, drogatização, consumo compulsivo, cuidado exagerado com o corpo, intervenção estética como tatuagens, percings, etc. Todos eles são tentativas de substituir o vazio; quando essa iniciativa aparente de criar sentido, perde sua força, seu significado, a sensação de vazio retorna; os sintomas da depressão emergem, tomam conta e, a realidade se transforma em algo cinzento, escuro, mórbido; e a pessoa está doente.
A civilização ocidental está doente. E a quantidade de gente drogatizada, deprimida, vagando pelas lojas, ou se lançando em tudo que possa lhe roubar em sua dignidade, evidencia a doença social que vive nossa civilização. No Brasil, o aumento de pessoas com depressão aumentou em quase mil por cento nos últimos dez anos.
A sensação do homem urbano ocidental é de vazio, a alta literatura produzida por alguns notáveis escritores, nenhum brasileiro, é um mapa do vazio do indivíduo contemporâneo. Desconhecendo a si mesmo, suas potencialidades, sua beleza, a realidade de que é um ser antes de tudo transcendente; que tem capacidades pra além de um objeto de uso do marketing, ou da ideologia, torna inevitável que o individue em um momento ou outro, se encontre consigo mesmo, e queira se descobrir no que realmente é.
Todo tipo de doença da alma, ou, doenças psi, são resultado do divórcio do homem com sua própria transcendência. A velocidade da vida diária, as obsessões com sucesso e dinheiro, prazer e felicidade material, expressam o individuo tentando preencher seus vazios interiores.  
Ocorre que sendo a própria cultura ocidental a expressão do vazio, do rasteiro, do ignóbil, de tudo que é rebaixado, o individuo que se apercebe da sua condição, e tenta dela se desvencilhar, procurando um caminho que o leve a compreender-se a si mesmo e suas possibilidades, defronta-se com uma barreira quase intransponível. Se a própria cultura onde o individuo está é a expressão daquilo que produz sua dor, como encontrar nessa cultura a “cura” pra si mesmo?
A velocidade com que a cultura tradicional brasileira, sua religiosidade, seu entendimento do que tem valor ou não, está sendo transtornada, atacada e desaparecendo do horizonte como referência do individuo, tem deixado as pessoas sem chão, perdidas, deslocadas e desorientadas; herdeiras do passado, mas impedidas de nele se sustentar subjetivamente, e ao mesmo tempo mergulhadas no novo, no digital, no cosmopolita, sem, contudo, dele fazerem parte; o resultado é um indivíduo exilado de si mesmo, exilado da própria possibilidade de sentido.
Quando o sentido pra nossas vidas está fora de nosso alcance, acabamos entregues ao imediato, ao simples, aquilo que não possui profundidade. Não é a toa que as novas gerações, mas, não apenas elas estão mais propensas a qualquer coisa que premie rapidamente; é por isso que elas preferem o simples ao complexo, o rápido ao que é lento, o prazer ao transcendente, à informação ao conhecimento, o entretenimento a contemplação.
O ser humano é da ordem do que é complexo e profundo, mas vive numa cultura que o rebaixa e o desumaniza. O desnível entre o que é, e como vive, está na raiz das dores da alma que sente.










quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O Brasil vive sua desgraça

Luciano Alvarenga
O Brasil mergulha novamente no caos, depois de alguns anos em que se imaginou adentrando o mundo desenvolvido. A democracia igualitária, que segundo Tocqueville é o passo mais rápido até uma ditadura totalitária, nos foi vendida pelos agentes da redemocratização, como o caminho único pra vencer o subdesenvolvimento.
Pessoas mais velhas, e que estão nessa janela há muitas décadas, não compraram com rapidez o discurso da democracia. Quietos ficaram por questão de sobrevivência; mas agora assistem o coro de vozes descontentes com o regime que nos governa. A democracia igualitária brasileira é apenas um discurso, um discurso que norteou os rumos, mas que não alterou a substância da qual somos feitos.
De repente nos olhamos a nós mesmos e percebemos que somos uma mentira. O Brasil é um gigante de sombras, projetadas pelo sol de outras culturas, outras civilizações. O Brasil tem dono e a democracia foi apenas uma maneira, de incluir a massa do povo num sistema onde ela não tem voz nem vez. Uma vez que a cultura da qual a massa do povo faz parte, sempre foi outra, tradicional, interiorana e religiosa. A democracia moderna a nós vendidos, mal se ajeitou ao fato de que a própria modernidade jamais fincou raízes entre nós.
A modernidade é a superação da tradição, e a formação de uma cultura outra que a substitua; uma cultura assentada na razão, na ciência, no humanismo e no indivíduo, ou em uma palavra, no mundo material e mais nada. Ora, isso nunca se realizou por aqui. No entanto, a tradição e a religião a ela coligada, foi se desmanchando, se diluindo, liquefazendo no tempo mesmo em que a modernidade não se instalava. Isso se explica, por uma elite intelectual e econômica, muitas vezes também a religiosa, que jamais teve como intenção realizar, nem uma coisa nem outra. Essas elites quiseram um país pra si mesmas, nem tradicional nem moderno.
O caos em que nos vemos é a última expressão de um país que se desmanchou. Sem uma elite intelectual que nos pense, sem um povo que se entenda de maneira uniforme, estamos à deriva de narrativas da mídia vinculada a interesses específicos, que promovem o caos quanto mais se interessa em “compreendê-lo”. A enorme insegurança em que estamos seja econômica, emocional, psíquica ou religiosa, expressa uma nação sem destino, sem rumo. Aqueles que comandam o país, em qualquer sentido de comando, em qualquer nível de poder, laico ou religioso, simplesmente nada comandam, porque não possuem profundidade de saber, nem conhecimento espiritual, nem lapidação moral e o caráter elevado de que a nação precisa nesse momento. E a ausência mesma desses líderes elevados moralmente, aqui num sentido religioso e filosófico, é fruto da nação, da sua cultura. Como diz o sagrado texto, “é pelos frutos que se conhece a árvore”.
O que estamos vivendo ou, aquilo que não estamos vivendo, é fruto do que não somos. Isso porque somos uma cultura de baixo nível, rasteira, inimiga de tudo que é superior, elevado, nobre, seja espiritualmente, seja materialmente. É claro que tivemos momentos, décadas até, em que o espírito superior vicejou entre nós, mas ao mesmo tempo em que surgiu, foi duramente combatido, pisoteado, humilhado e jogado fora. Tudo que expressou alta cultura no Brasil foi destruído e apagado da lembrança.
Estarmos como estamos, subjugados pelo que tem de mais rasteiro, obrigados a sermos guiados por grupos delinquentes e marginais, expressa apenas o que somos. A democracia acelerou o processo de corrosão da nação, porque permitiu à assunção dos piores tipos encontrados na sociedade; a política na democracia transformou-se no mais perfeito organismo de alpinismo social dos mais degradados entre nós.
O mau caratismo, o banditismo e iniquidade foram elevados a critério de seleção dos “melhores”. Não há lugar no país em que essas características não sejam alçadas como referência na escolha de quem sobe, ou quem assume o poder. Sendo esses os pré-requisitos indispensáveis a quem queira um lugar ao sol, a vida cotidiana da nação, de cima a baixo, virou uma arena em que os piores concorrem entre si, da onde o pior, o mais larápio, o mais iníquo, o mais cínico, pérfido, fingido, mau, é premiado como exemplo de sucesso e destaque; e esses tem seu lugar.
O caos em que estamos com a própria população saqueando lojas e estabelecimentos comerciais, na ausência da policia; lembrando ainda o caso de tal MC Beijinho, que de dentro da uma viatura é elevado ao sucesso com aplausos da mídia e da right society artística, evidencia, sem contra argumento, que a imoralidade e o banditismo são a própria argamassa que nos conforma.
Imaginar que um ou outro, desses que se apresentam, como salvadores da nação possam dar conta do estado de coisas em que estamos, é ingênuo, e desesperado. Mesmo aquilo que de melhor emergiu entre nós, nos manifestos de rua dos últimos anos, já apodreceu afundados na alta suficiência, na vaidade de imaginar poderem condensar em si mesmos um país inteiro.

Escola e Família, defuntos e zumbis

Escola e Família, defuntos e zumbis
Pessoas comuns, homens, mulheres, senhoras e senhores, se entregaram rapidamente ao roubo e a pilhagem em Vitória, Espírito Santo; comportando-se como bandidos, tão logo ausentada a policia. Como pessoas comuns, honestas a principio, viram ladrões de um dia pra outro. A escola e a família estão na base disso.
A escola pública, pra ficarmos num bom exemplo, é a expressão cabal da falência múltipla da sociedade brasileira, pra não dizermos da falência, daquilo que em outros tempos já foi tratado como Civilização Brasileira.
O universo absolutamente caótico em que aquela escola se encontra, reúne em si, uma série de exemplos dessa falência civilizacional, mas tratemos apenas de um, o professor. O professor, aquele que é o centro da escola, e deveria ser o centro em torno do qual aquela escola se pensa, foi, não somente marginalizado (termo desgastado), e destituído do seu sentido, como vive ele, hoje, uma crise de sentido identitário, justamente por que desvestido do seu papel.
A escola transformou-se apenas no lugar onde crianças e adolescentes se reúnem, sem qualquer outro sentido. Incapaz de dar lugar a essas pessoas no mundo atual, a sociedade vê a escola como um centro de encarceramento, pra uma massa de gente sem lugar, nem função. Substituindo a família, tratada como uma anomalia e um resquício das sociedades tradicionais, os discursos ideológicos esvaziaram o papel dos pais como educadores primeiros e fundamentais, das crianças e adolescentes, e em seu lugar, tornaram a escola o lócus onde o sentido da vida, moderno e individual, deveria se constituir.
A escola, então, não é mais o lugar onde o aperfeiçoamento técnico cognitivo se faz, e onde o indivíduo traduz subjetivamente a educação moral transcendente dos pais; não, a escola é apenas um espaço de adestramento ideológico-técnico sem conteúdo moral, porque os pais deixaram de ser uma referência como formadores dos seus filhos.
O desmantelamento da família, a desautorização dos pais, entendidos como profissionalmente incapazes de formar seus filhos segundo os discursos acadêmicos profissionais, e preocupados demais com o mundo a sua volta e sua própria subsistência, tornaram todas as crianças e adolescentes órfãos do seu passado, legado pela família, e ao mesmo tempo, reféns do Estado, como tutor central da nova educação.
A escola em outros tempos era apenas um espaço de aprendizado técnico, que expressava em suas relações internas, aquilo que era entendido fora da escola como fundamental à formação e maturidade do indivíduo. Respeitar o professor era apenas a transferência no espaço da escola, do respeito que se possuía pelos pais. Estar na escola significava apenas acessar certo quantum de conhecimento, que deveria paralelamente, vir a se integrar ao indivíduo, naquilo, fundamental, já adquirido em casa.
Os pais eram o centro da educação em casa, e o professor era o centro do aprendizado na escola. Quando os pais foram esvaziados de sua função, desautorizados e silenciados pelos discursos ideológicos, consequentemente, os professores perderam ao mesmo tempo, e na mesma intensidade, a sua autoridade na escola. Assim como os pais nada mais representam que apenas vetores da subsistência material dos filhos, os professores nada mais representam, que apenas carcereiros de uma massa infanto-juvenil sem lugar, nem função.
A crise emocional gravíssima vivida pela massa do professorado brasileiro, especialmente nas grandes e médias cidades brasileiras, é a expressão psíquica de um ser destituído de seu papel e do que ele representa. Um professor em sala de aula é um individuo que precisa lidar ao mesmo tempo, com o fato de que nada representa, por que portador de um conhecimento que se torna obsoleto mais rápido do que pode ser assimilado pelos alunos, e, impedido de ser quem é; professor.
O tempo em sala de aula é um desgaste emocional, com pouquíssimos paralelos em outras profissões. Cada minuto com os alunos representa a capacidade ou não, do professor desvestir-se do que é, negar-se a si mesmo; de ter obrigatoriamente de representar “teatralmente” a morte de si mesmo. A escola é um espaço morto, porque morto o professor.

Sem autoridade simbólica e concreta, porque a referência da primeira autoridade são os pais, e estes nada mais podem contra o estado de coisas atual, e sem autoridade concreta, porque portador de um saber, seja obsoleto, seja ideológico e vazio; o fato é que professor e escola reúnem a um só tempo e lugar a falência de uma sociedade inteira.